Os SMS, emails e chamadas de burla que circulam por cá seguem todos a mesma forma. Quando reconheces a forma, o conteúdo deixa de importar.
Os disfarces mudam com a estação (IRS na primavera, encomendas em dezembro, SNS24 quando há um susto na imprensa), mas o esqueleto por baixo é sempre o mesmo. Três ingredientes:
- Autoridade aparente: uma marca em que confias (CTT, Finanças, o teu banco, MB Way, SNS24, PSP).
- Pressa: uma janela apertada, hoje mesmo, ou perdes algo.
- Uma ação: clicar num link, transferir dinheiro, partilhar um código.
Se dois destes três aparecem juntos numa mensagem ou chamada inesperada, trata-a como suspeita até confirmares por outro canal.
A seguir, os disfarces mais frequentes que vão chegar ao teu telemóvel este ano.
"CTT: a sua encomenda está retida"
Versão clássica em Portugal. Recebes um SMS dizendo que uma encomenda está retida na alfândega ou no centro de distribuição, e que tens de pagar uma pequena taxa (1,80 €, 2,99 €, valores baixos) para a libertar. O link leva a uma página que parece dos CTT e pede dados do cartão.
Os CTT verdadeiros não cobram taxas de envio por SMS para libertar encomendas, e quando há uma taxa alfandegária real, o pagamento é feito pelos canais formais (no site oficial dos CTT, ou em loja). Em dúvida, abre tu a app dos CTT, ou o site ctt.pt, e procura o número de seguimento. Se a encomenda existe a sério, vais vê-la lá. Se não a vires lá, era falsa.
"Autoridade Tributária: tem um reembolso pendente / divergência no IRS"
Sazonal, com pico entre março e julho. Mensagem (SMS ou email) diz que tens um reembolso para receber, ou uma divergência para regularizar, com link para um portal falso que pede credenciais ou dados bancários.
A Autoridade Tributária só envia emails de endereços que terminam em at.gov.pt, e nunca envia links a pedir para inserires ou confirmares dados pessoais ou fiscais. Para qualquer assunto fiscal real, entras tu no Portal das Finanças (portaldasfinancas.gov.pt) pelo teu lado.
MB Way: "envia-me de volta esses X euros"
Recebes uma transferência de MB Way que não estavas à espera (normalmente 100, 150 ou 200 euros) de um número desconhecido. Logo a seguir, vem uma mensagem de WhatsApp ou SMS: "desculpe, enganei-me na transferência, pode devolver-me?".
Parece honesto e parece um problema só dele. Mas o esquema funciona como camada de lavagem de dinheiro: o dinheiro que recebeste pode ter origem ilícita, e ao devolveres a partir da tua conta estás a transformá-lo em dinheiro "limpo" que segue o caminho. A Polícia Judiciária já deteve operadores deste esquema em Portugal.
A resposta certa: não devolvas pelo teu lado. Liga primeiro ao teu banco e expõe o caso. O banco sabe como tratar uma transferência indevida; tu não tens de ser intermediário.
MB Way: o "comprador" do OLX, Vinted ou Custo Justo
Estás a vender qualquer coisa online. Aparece um comprador muito interessado, com pressa, que quer pagar por MB Way. Diz-te que precisas de te registar no MB Way numa caixa Multibanco, e dita-te os passos por mensagem. O que ele te está, na verdade, a fazer é a associar o telemóvel dele à tua conta bancária. A partir desse momento, ele transfere o teu dinheiro para fora da tua conta.
Nenhum comprador real precisa de te ditar como configurar uma app no teu telemóvel ou na caixa Multibanco. Se um "comprador" começa a dar-te instruções, sai da conversa. Para receber via MB Way, basta-te associar o teu número na app do teu banco, sozinho.
"É do seu banco, a sua conta foi comprometida"
Vishing, ou seja, burla por chamada de voz. O número que aparece no telemóvel pode ser o número oficial do teu banco (é fácil de falsificar). A voz pode até ser uma voz familiar, clonada por inteligência artificial a partir de um vídeo público ou de uma chamada anterior. O atacante diz-te que a tua conta foi invadida e que tens de transferir o dinheiro para uma "conta segura", ou dar-lhe um código que acabaste de receber, ou autorizar uma operação no MB Way.
Memoriza esta linha: nenhum banco a sério te diz para transferires dinheiro para uma "conta segura". Essa frase é, ela própria, o sinal de que estás a ser burlado. Nenhum banco te pede o código completo, a palavra-passe completa, ou a confirmação do MB Way pelo telefone.
Em qualquer chamada estranha, desliga. Liga tu, pelo teu lado, para o número do banco que está atrás do teu cartão. Se a chamada era real, o banco vai saber dela.
"Pai, estou em sarilhos": a chamada com a voz de um familiar
Variante da mesma técnica, virada à família. Com poucos segundos de áudio (uma mensagem de voz reencaminhada, um vídeo nas redes sociais, uma peça escolar publicada online), um atacante consegue clonar a voz de alguém de quem gostas. A partir daí, há duas direções e ambas estão a acontecer em Portugal:
- Recebes uma chamada com a voz do teu filho, em pânico, a dizer que teve um acidente, que foi detido, que precisa de dinheiro já. A voz é dele. O pedido não é.
- O teu filho recebe uma chamada com a tua voz a pedir-lhe um código que acabou de chegar ao telemóvel, ou uma morada, ou para abrir a porta a alguém. A voz é tua. O pedido não é.
A defesa: combina com a tua família uma palavra-chave que só vocês sabem. Numa chamada de aflição, perguntas a palavra-chave. Sem palavra-chave, não se transfere nada e não se diz nada. Desliga, e liga tu de volta para o número que tens guardado dessa pessoa. O princípio por trás disto está em Phishing: como reconhecer; aqui basta o reflexo.
"SNS24 / centro de saúde: confirme o seu acesso"
Após qualquer notícia sobre dados de saúde, aparecem mensagens a fingir que são do SNS24 ou do centro de saúde, a pedir para "verificares" o teu acesso através de um link. Não cliques. O acesso real ao SNS24 é feito pelo site sns24.gov.pt ou pela app oficial, sempre por tua iniciativa, com Chave Móvel Digital ou Cartão de Cidadão.
A regra única que cobre tudo
Sempre que receberes uma mensagem ou chamada inesperada, que mete pressa, e que te pede dinheiro, um código, ou um clique: fecha o canal por onde veio e abre tu o canal oficial pelo teu lado. Se for real, vais conseguir confirmar. Se for burla, acabou ali.
- A forma é sempre a mesma: autoridade aparente, pressa, ação. Reconhece a forma e o conteúdo deixa de importar.
- O Estado não pede dados de cartão por SMS, e a AT só envia emails de endereços
at.gov.pt.
- Os CTT não cobram taxas de envio por SMS para libertar encomendas.
- MB Way: nenhum comprador real te dita os passos no Multibanco, e nenhum banco te pede para devolveres uma transferência manualmente.
- Nenhum banco te diz, ao telefone, para mover dinheiro para uma "conta segura". É sempre burla.
- Chamada de um "familiar" em apuros: pede a palavra-chave familiar. Sem palavra-chave, desliga e liga tu de volta. A voz por si só já não chega para provar quem está do outro lado.
- Em qualquer dúvida, fecha por onde veio, e abre o canal oficial pelo teu lado.